Apresentando-me


O meu nome completo é Luís Timóteo Barros Ferreira, Luís do pai e era com Z, Luiz; Timóteo do avô e era para ser com H, Timotheo. Creio que o zelosíssimo funcionário do Registo Civil pensou que era uma grafia muito antiquada para criança daqueles tempos, final da década de sessenta do século passado, 1967, década da morte de J. F. Kennedy, do Maio de 68 e da chegada do homem à lua. Tenho 43 anos e uma filha de 15, uma mulher de 41 e um enteado de 11.
A adolescência pequeno-burguesa num Rio de Janeiro cada vez mais miserável correu conturbada, como era esperado e desejado por todos os adolescentes, ainda que digam o contrário. Os anos de ditadura no Brasil ajudaram a catalisar aquela fome de viver típica da juventude. O Movimento Estudantil, o associativismo penosamente apartidário, foi escola da vida.
Emigrar pareceu ser um destino inscrito nos genes e no carácter. Sou a terceira geração a cruzar o Atlântico, agora no sentido inverso, e julguei que beberia dos lácteos úberes da Lusa-Atenas a europeidade… Ledo engano. A Coimbra do final da década de 80 era provinciana e casmurra, formal e triste. E distante da Europa! Mas era Coimbra! E eu era repúblico, republicano, anticlerical, laico e sempre, sempre livre das peias dos partidos políticos. Como dizia o Herculano, um libertadeiro.
O ensino surgiu da necessidade e tornei-me, com espanto, um proletário da educação: simplesmente preenchi um impresso e eis-me na escola, sôtor pr’aqui, sôtor pr’ali, pastinha na mão, salário no bolso, desespero no coração. O Cavaquismo avançava a passos largos para o seu fim, o investimento escasseava, vi negado por duas vezes o acesso à carreira de investigação. A vida é feita de realidades e necessidades. Ser professor era fácil, o mais difícil era gostar de o ser. Aprendi a gostar, inteiramente, verticalmente e não raras vezes contra os próprios professores, contra um modelo de ensino e de escola.
Leccionei História no Secundário e a cada ano que me aproximava do vínculo eterno à Função Pública mais claro se tornava que ficaria adstrito ao 2º Ciclo, com a possibilidade e o risco de leccionar Língua Portuguesa. Tal aconteceu em 1997/98. Estranhamente e com surpresa gostei, sentindo claramente que o prazer se sobrepunha às dificuldades da falta de treino e de didáctica. Lembro-me perfeitamente dos meus dias de 6ºA e 6ºB, dos erros e dos acertos, dos desafios e da rotina, de tudo o que fizemos, vivemos e aprendemos, sendo ainda um prazer lembrar, quando encontro alguns daqueles alunos, as peripécias de tão bem fadado ano. A partir de então dar português tornou-se numa coisa bem diferente de dar história. E enquanto em contador de histórias à minha filha me tornava, ia-me tornando cada vez mais professor de português.
A disciplina de Língua Portuguesa nos permitia, a mim e aos meus alunos, falar do que é bom e belo. A disciplina de História impunha-nos falar do contingente e do necessário. A Língua Portuguesa transportava-nos a um mundo de fantasia, de jogo e de fruição. A História nos prendia a lógicas de poderes, estruturas e dominação. E se nem tudo são rosas, nem tudo espinhos. A gramática por vezes exige equações lógicas e a história também é narrativa ficcional. É certo que nas veredas que ligam esses caminhos se cruzaram toda a sorte de influências: dos programas aos currículos, do sistema às mentalidades, dos manuais às escolas, tudo concorreu e concorre para condicionar opções e escolhas.
Estou cansado. Sei por onde ir, seguindo alguns espíritos lúcidos, mas sei que por onde vai a maioria é por onde não vou. Arrastado por um inexorável meio profissional, docente e discente, familiar, social e político, por vezes sinto desfalecer a força que me impele contra a corrente. É nesses momentos, quando caio, que me empurra uma desconhecida força, obrigando-me, bolinando, a passar além da dor de me sentir um vencido da vida. Estou aqui para aprender, para transformar a minha prática, para aprender a transformar, ajudando com mão precisa a quem precisa de uma mão amiga e sábia para aprender. Termino pois em tom épico, se não trágico, citando o maior dos poetas: “Vereis amor da pátria, não movido / De prémio vil, mas alto e quase eterno”.


2 responses to “Apresentando-me

  • Rolando

    Muito bem, é uma boa forma de te apresentares. Eu tive um pouco mais sorte: estudei em Lisboa que também era algo cinzenta, mas num tom mais clarinho que Coimbra.
    Abraço e força no Blog.

  • Margarida Ramos

    Olá Luís,
    Pois é…. o mundo é pequeno! Eu ainda em Silves e tu ainda no Funchal. Este verão estivemos quase para apanharmos o barco e dar um saltinho até à Madeira. Mas depois veio a crise e contámos os tostões… Resolvemos passar as bem ditas férias num condomínio fechado no Algarve. Não foi mau, mas tenho de ir pelo menos mais uma vez à Madeira e umas quantas aos Açores. Estive a dar uma olhadela ao teu percurso de vida e fico contente por saber que estás bem e feliz. Um beijo grande para ti e para a tua família.
    Margarida Ramos

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